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Doshas

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Para alcançar uma vida mais plena e equilibrada, o Ayurveda nos traz um conhecimento valioso, a visão de como os Doshas nos influenciam e se relacionam. Mas precisamos cuidar para não fazer dessas três energias rótulos para as nossas personalidades, algo mais com que desesperadamente tentamos nos identificar. A pergunta “que Dosha você é?” mostra bem essa visão do sistema ayurvêdico, que reduz os Doshas a tipos de constituição física e mental. Vata, Pitta e Kapha são muito mais do que isso. São energias presentes em toda a Natureza, responsáveis pelo seu funcionamento equilibrado e cíclico.
Isso porque os Doshas são a expressão das três grandes forças cósmicas: Vayu, Agni e Soma, já reverenciadas nos Vedas como deuses. Vayu é a energia que origina a vida e o movimento, a força vital que anima os seres. Agni é a luz, eletricidade e calor, que transforma o que precisa ser transformado. Soma origina a matéria, é a força gravitacional que mantém as coisas unidas, o amor. Relacionam-se metaforicamente com o Vento, Sol e Lua, respectivamente e se materializam como Vata, Pitta e Kapha. Tal como essas forças, cada um dos Doshas é composto por dois dos cinco Mahabutas ou elementos (Éter, Vento, Fogo, Água e Terra), que conferem seus atributos e diferentes funções.  
Vata é composto por Vento primariamente, que se movimenta pelo espaço (Éter), o elemento secundário. Controla o movimento e comunicação do corpo e mente, o fluxo dos pensamentos e a fala. A homeostase, ou equilíbrio do corpo, acontece por comunicação entre os diferentes órgãos e tecidos, por ação de Vata.  Quando por exemplo, a temperatura exterior aumenta, o hipotálamo precisa receber essa informação para acionar os mecanismos que adéquam a temperatura corporal. Sem comunicação, Pitta e Kapha não conseguem funcionar adequadamente. Por isso, quando Vata entra em desequilíbrio estes logo seguem.  Vata é assim a raiz dos tecidos e responsável pelo seu equilíbrio. Por sua energia móvel e sutil está relacionado á respiração e sistema nervoso. Seus atributos são: agitado, seco, leve, frio, áspero e sutil.
Pitta é composto principalmente por Fogo, que faz a digestão tanto de nutrientes como de impressões, pela mente. Controla o metabolismo e está por isso relacionado à produção de hormônios, enzimas e sucos digestivos. Neste caso, a Água, o elemento secundário, serve como proteção, para que o fogo não queime aquilo em que toca. Pitta está muito ligado á visão, já que esta é o sentido que nos permite digerir a luz. É também responsável pela fome, sede, brilho, cor, entendimento e coragem. Seus atributos são: ligeiramente oleoso ou úmido, penetrante, quente, leve, odor desagradável, móvel e líquido.
Kapha é composto por Água principalmente, que com a Terra, elemento secundário, dá estrutura, nutrição e suporte. É o Dosha que compõe os tecidos como o plasma, ossos e gordura. Também é responsável pela lubrificação, como no caso do liquido sinovial nas articulações e proteção, no caso do muco. Dá-nos estabilidade física e psicológica, assim como paciência e afetividade. Seus atributos são: oleoso ou úmido, frio, pesado, denso ou lento, pegajoso, suave e estável. 
Ou seja, precisamos dos três Doshas e dos cinco Mahabutas para que o nosso corpo e mente funcionem plenamente.  Por isso, não é muito adequado dizer “eu sou Vata”, quando somos sim, uma mistura dos três Doshas, ainda que em diferentes proporções. Em todas as funções do organismo, podemos observar a sinergia entre estas três forças e a forma como se complementam. Quando comemos algo, por exemplo, é Vata que faz com que os diferentes órgãos se comuniquem e movimentem esse alimento, Pitta que digere, ou seja, separa nutrientes de dejetos e Kapha que lubrifica e protege os órgãos dos ácidos digestivos. Na respiração, o ar externo é trazido por Vata, o oxigênio separado por Pitta e todo o sistema protegido por Kapha em forma de muco e surfactante que impede os alvéolos de colapsarem. Também a mente precisa das três forças funcionando: é por Vata que captamos as impressões externas, mas por Pitta que as compreendemos e por Kapha que as memorizamos.
Pensar em termos de atributos facilita a compreensão dos Doshas, já que estes não são visíveis ou palpáveis. Um dia frio e úmido naturalmente agrava Kapha e por isso ficamos mais propensos a ter resfriados com suas características como a produção de muco (denso, pegajoso, frio) e sensação de peso no corpo (denso, pesado, estável). Da mesma forma, uma comida picante (penetrante, quente) pode nos provocar um agravo Pitta como uma inflamação (quente).  Quando entendemos que atributos pertencem a que Dosha podemos olhar para a comida, clima, corpo, rotina e prever qual aumentará e qual reduzirá, lembrando sempre que “Semelhante gera semelhante”. 
Também podemos definir a constituição de uma pessoa observando que atributos são mais predominantes.  A questão é que fica fácil confundir a constituição original (Prakrutti) com desequilíbrios ou agravos por questões externas. Uma pessoa que dorme pouco, viaja muito e se alimenta erraticamente provavelmente terá manifestações Vata como pele seca ou ansiedade, mas por agravo deste Dosha.
Outro equívoco comum é pensar no equilíbrio como a proporção igual entre os três Doshas. Vemos a pessoa equilibrada como aquela que teria a energia de Vata, a determinação de Pitta e a afetuosidade de Kapha. Porém, estarmos em equilíbrio significa que os três doshas estão na proporção original da nossa constituição e isso pode ser mais Vata, mais Pitta ou mais Kapha.  Então serei para sempre um Pitta irritado, com azia e espinhas? Não! É muito importante entender a diferença entre o que são traços constitucionais, expressões de equilíbrio e sintomas de desequilíbrio de cada Dosha. Para além disso, a maior parte das pessoas têm dois Doshas numa proporção semelhante, o que faz com que tenham características de ambos. Um diagnóstico correto da Prakrutti só pode ser feito por um terapeuta ayurvêdico, mas seguem algumas linhas gerais que caracterizam cada um dos tipos constitucionais:
As pessoas com Vata predominante são normalmente magras e seus padrões de fome, sede e sono são irregulares, tendo muitas vezes insônia e se esquecendo de comer. A sua energia é variável e tendem a se cansar facilmente.  Pelo seu atributo seco, a sua pele costuma ser seca e têm tendência para constipação. A sua mente é rápida para captar informações, mas também para esquecê-las. Caminham e falam rápido. Os seus principais órgãos de sentido são os ouvidos e a pele e por isso são pessoas que reagem a barulhos fortes e que se comunicam muitas vezes pelo toque. Quando em equilíbrio, são pessoas com muita energia, entusiasmo e bom humor, ágeis e leves, que gostam de se comunicar e mudar. Vata em desequilíbrio provoca emagrecimento, digestão irregular, constipação, ansiedade, medos, desorientação e dor. 
Têm muito entusiasmo quando começam a praticar Yoga, mas podem ter dificuldade de continuar, já que lhes custa seguir uma rotina. Isso também as pode levar a mudar constantemente de método ou professor, não se comprometendo com nenhuma prática. Outro desafio que podem encontrar são as dores, muitas vezes causadas por extrema secura das articulações e músculos. A prática de Ashtanga ajuda-os a ganharem concentração e disciplina, enraizando-os e ajudando a produzir calor interno, alcançando aos poucos uma mente mais tranquila. Devem ter cuidado para não ficarem exaustos com a prática, respirando com calma e descansando em Savasana por tempo prolongado, cobrindo-se para não esfriarem.
As pessoas com Pitta predominante têm uma estrutura mediana e musculatura desenvolvida. A pele tem bastante cor (rosada ou com sardas), assim como os olhos e o cabelo, que pode ser castanho claro ou ruivo e embranquecer cedo. São sensíveis ao calor. Têm fome e sede intensas, não gostando de saltar refeições e ficando irritados quando isso acontece. Pela sua característica penetrante costumam ter suor e hálito com cheiro forte. Seu passo é determinado, assim como suas ações. A visão é o seu órgão dos sentidos mais sensível e como tal, têm um forte sentido estético. São inteligentes, justos, exigentes e competitivos.  Pitta em desequilíbrio traz fome, sede e sudorese excessivas, febre, hemorragias, sensações de ardência, irritações de pele, icterícia (cor amarelada na pele e mucosas), inflamações, agressividade e raiva.
Pela sua disciplina são facilmente atraídos pela prática de Ashtanga, memorizando rapidamente a série e se dedicando a fazer o seu melhor em cada postura. Porém, têm tendência a ser levados pela competitividade e preocupação com detalhes técnicos dos asanas, provocando lesões quando forçam para além do que deviam. Quando finalmente aprendem a ser menos exigentes consigo mesmos, a prática acalma esse fogo interior exacerbado, ajudando-os a sair da lógica mental e a entregarem-se ao momento. O seu foco deve ser não esquentar demasiado o corpo, respeitando seus próprios limites, aproveitando as propriedades refrescantes das posturas finais e fazendo um Savasana longo.  
As pessoas do tipo Kapha têm uma estrutura robusta, com bastante resistência. A sua pele é macia, pálida, fria e oleosa. A sua fome é constante mas leve e comem muitas vezes por questões emocionais, o que os leva a ganhar peso facilmente. O sono é profundo e acordam devagar. O seu pensamento é lento, mas conseguem memorizar por muito tempo as informações. São calmos, compassivos e amorosos, mas podem se tornar apegados a pessoas queridas e bens materiais. Relacionam-se com o mundo através do cheiro e paladar, gostando de roupas e lugares confortáveis ou gostosos. Em excesso, Kapha cria um fogo digestivo baixo, acúmulo de Amma, náuseas, sensação de peso, sono excessivo e letargia, congestão, obesidade, excesso de muco, problemas respiratórios como bronquite, palidez, lassidão dos membros, estagnação mental, possessividade, ciúmes e resistência a mudanças.
Pela sua dificuldade em começar algo novo, podem ter dificuldade de iniciar uma prática de Ashtanga. Quando conseguem persistir são as pessoas que mais se beneficiam com essa prática, que lhes dá força e agilidade, ajudando-os a esquentar o corpo, acelerar o metabolismo e diluir o muco acumulado. A rotina de acordar de manhã cedo para fazer algo físico é ótima para as pessoas deste tipo, ajudando-os a dinamizar sua vida e sair do sedentarismo. Para isso precisam vencer a preguiça, tentando ir para além daquilo que acreditam ser seus limites e não se deixando ir demasiado devagar. Devem evitar adormecer em Savasana, para não ficarem sonolentos depois da prática. 
Porém, mais importante que tentarmos nos encaixar num tipo de constituição é compreendermos como essas três energias nos influenciam e como podemos trabalhar com elas para nos sentirmos mais dispostos e em consonância com a Natureza. Ayurveda e Yoga caminham juntos quando entendemos que para termos paz interior precisamos primeiro curar nosso corpo e mente. 
Texto: Olga Rodrigues 
Imagens: Taeko